O Comércio Informal de Drogas Vegetais Psicoativas: risco à saúde associado ao consumo!

Por: Julino Soares

Artigo científico alerta para o perigo de consumir produtos de origem vegetal sem as garantias de qualidade e segurança estabelecidas pelas agências sanitárias.

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O estudo teve como objetivo avaliar o risco associado ao consumo de drogas vegetais psicoativas (DVPs) (produtos de origem vegetal com ação no sistema nervoso central, utilizados com fins terapêuticos para acalmar, dar vigor etc.) comercializadas informalmente em Diadema, SP.

Além da pesquisa etnográfica com os “raizeiros” ou comerciantes informais, o estudo utilizou diversos parâmetros para avaliar amostras dessas DVPs, com o objetivo final de determinar o risco associado ao consumo:

  • microbiologia: ex., busca de microrganismos nas DVPs que poderiam causar doenças. As plantas podem ser contaminadas por diversas fontes, como esterco, solo e água.
  • farmacognosia: ex., para confirmar se a planta citada no rótulo e realmente a da embalagem. A troca de uma planta por outra pode ser acidental, mas também existem substituições por plantas mais baratas, como pode acontecer com o ginseng (Panax ginseng) uma espécie de alto custo de mercado.
  • farmacovigilância: ex., buscando informações sobre possíveis efeitos indesejados. Apesar da crença popular, dados científicos têm demostrando o potencial dos fitoterápicos de causarem interações adversas com outros medicamentos e intoxicações.

Após a entrevista com os comerciantes, pudemos identificar que diversas drogas vegetais são indicadas e comercializadas para o consumo como estimulantes (ex., catuaba) ou depressoras (ex., camomila para acalmar) do sistema nervoso central nos locais consultados. Essas drogas vegetais foram classificadas como psicoativas (DVPs), a partir do qual realizamos novas análises.

Para as análises laboratoriais foram selecionadas algumas espécies pelos nomes populares (sem a confirmação botânica) e adquiridas amostras de diferentes comerciantes, totalizando 52 lotes. Destes, 80.8% apresentaram microrganismos indicadores de risco, que poderiam causar doenças (identificados pela microbiologia), e apenas nove das 16 espécies foram confirmadas como autênticas pela farmacognosia (o conteúdo estava de acordo com o rótulo). Essas análises são feitas com base na farmacopeia brasileira e outros estudos científicos.

Finalmente, buscamos informações na literatura científica sobre efeitos indesejados provocados pelas plantas identificadas pela farmacognosia (não é possível realizar uma boa pesquisa se não sabemos o nome botânico da planta). Esse levantamento mostrou a possibilidade de interações das DVPs estudadas com medicamentos (um pode interferir negativamente no efeito do outro), reações adversas (ex., alergias) e contraindicações, especialmente para gestantes e pessoas com deficiências no sistema imunológico.

Desta forma, é importante ter em mente que a ação terapêutica dos fitoterápicos depende de muitos fatores, como a qualidade da matéria prima (livre de contaminantes e corretamente identificada) e o conhecimento das limitações desses produtos.

Referência

Soares JAR, Kato EM, Bugno A, Galduróz JCF, Marques LC, Macrini T, Rodrigues E. Informal Trade of Psychoactive Herbal Products in the City of Diadema, SP, Brazil: Quality and Potential Risks. Evidence-Based Complementary and Alternative Medicine. Volume 2013 (2013), Article ID 894834, 11 pages. http://dx.doi.org/10.1155/2013/894834.

Julino Soares é biólogo, doutorando pelo Programa de Pós-Graduação em Psicobiologia da Universidade Federal de São Paulo.

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Somos um coletivo multidisciplinar de pesquisadores, nas áreas de biologia, naturologia, farmácia e agronomia, com a missão de difundir o conhecimento científico sobre as plantas medicinais, tóxicas e outros produtos naturais.

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