Cúrcuma

por Marcos Roberto Furlan

Nos quintais e jardins em algumas regiões do Brasil, encontramos uma planta que gosta de brincar de esconde-esconde. Em algumas épocas do ano aparece com sua bela folhagem, como no verão, e depois toda a sua parte aérea murcha, ficando apenas os rizomas escondidos na terra. Com freqüência, muitos imaginam que a planta morreu e providenciam o plantio de outra espécie no mesmo local, provocando o seu desaparecimento.

Seus rizomas só nascem em época propícia, e não adianta ficar forçando, pois ficam em dormência por meses. Mas pode retirá-los do solo, e guardar até observar a brotação. Se o solo não for muito argiloso, nasce e cresce com facilidade por meio do seu rizoma plantado no final do ano e enterrado a alguns centímetros no solo. Desenvolve-se tão fácil, sem problemas com pragas, dando a impressão de ser nativa, mas foi presente dos asiáticos, mais especificamente das florestas tropicais da Índia, segundo os estudiosos da cultura.

O texto está se referindo a uma planta de uso secular na culinária, a Curcuma longa, e uns de seus principais nomes no Brasil é cúrcuma ou açafrão-da-terra, mas também encontramos estes outros nomes: açafrão-da-índia, açafrão-da-terra, batatinha-amarela, gengibre-amarelo, gengibre-dourado e mangarataia. Pertence à família Zingiberaceae, a mesma do gengibre, da colônia e da menos conhecida, zedoária. No mercado internacional é conhecida como turmeric.

O vegetal pode alcançar altura em torno de 120 a 150 centímetros em condições ideais de clima e solo; as suas folhas são grandes e exalam aroma agradável quando friccionadas, não tanto quanto a espécie colônia; o seu rizoma principal ou central é arredondado ou com formato de ovo e quando cortado mostra sua típica cor alaranjada. No Brasil é raro encontrar variedades de cúrcuma, mas há muitas nas principais regiões produtoras, como na Índia.

Apesar de ser bem conhecido no Brasil, seu nome resulta em uma confusão que pode dar um belo prejuízo financeiro. Enquanto a do texto custa alguns reais o quilo no atacado, a verdadeira, Crocus sativus, possui preço comparável ao do ouro. Esta última fornece os estigmas para serem usados na culinária, como na comida espanhola paella. No entanto, os valores medicinais da cúrcuma são superiores, além da facilidade de cultivo em todas as regiões brasileiras.

O rizoma, após seco, fornece um pó amarelo muito aproveitado na indústria de alimentos, como aromatizante e ingrediente no preparo de condimentos, laticínios e pratos prontos. Adiciona sabor e cor aos alimentos, ajuda na sua conservação e auxilia na digestão de quem o consome.

O uso de corantes naturais nos alimentos industrializados, como a curcumina, substância extraída desta espécie, vem aumentando, graças à forte demanda do mercado consumidor por produtos mais saudáveis e também pela divulgação de estudos relacionando os efeitos carcinogênicos dos corantes artificiais. Além da curcumina, o vegetal contém óleo essencial com excelentes características, sendo usado nas indústrias de perfumaria, medicinal e têxtil.

Sua utilização como planta condimentar ou especiaria tem sido relatada como iniciada há milênios, e desde a antiguidade já era muito utilizada como condimento no preparo e conservação de alimentos. Em diversos países asiáticos, é considerada componente indispensável no preparo de diversos pratos.

O curry é considerado um dos temperos mais antigos, e a cúrcuma é a responsável por sua cor característica. Além desta planta, o condimento, que é uma mistura de várias espécies, pode conter também canela, cardamomo, coentro, cominho, cravo, erva-doce, feno-grego, gergelim, noz-moscada, papoula, pimentas e tamarindo.

Na Índia e na China a cúrcuma é usada na medicina tradicional para o tratamento de várias doenças e os seus rizomas são considerados alimentos energéticos, com teores de proteína próximos aos níveis médios encontrados em grãos de arroz e trigo.

Diversas análises científicas sobre suas ações terapêuticas estão sendo realizadas e muitas atividades foram constatadas como, por exemplo, cicatrizante, antidepressiva, antioxidante e antiinflamatória. Alguns estudos indicam que o seu uso é bastante seguro.

Também há pesquisa que recomendava o uso da cúrcuma na aplicação em queijos, que é considerado um grande meio de proliferação de microorganismos patogênicos. O extrato alcoólico de cúrcuma acrescentado à ricota diminuiu a quantidade das bactérias causadoras de doença, aEscherichia coli e a Enterobacter aerogenes.

Atualmente tem sido ressaltada sua ação benéfica no sistema imunológico e no tratamento de câncer. Outra ação comprovada é como antiofídica, mas usando a substância curcumina, que neutraliza a ação do veneno.

No livro Farmácia Viva do Professor Abreu Matos, que infelizmente faleceu no ano passado, encontramos uma receita simples sobre o uso da planta para prisão de ventre. Basta ralar um pouco do rizoma sobre a salada.

Marcos Roberto Furlan é Engenheiro Agrônomo com doutorado em Agronomia (Horticultura) pela Universidade Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP). Atualmente é Vice-Reitor e Professor da Universidade de Taubaté (UNITAU), Prof. do curso de Agronomia da Faculdade Integral Cantareira e Prof. em cursos de especialização na UNITAU e nas Faculdades Oswaldo Cruz. Colaborador do Coletivo Curare, escreve originalmente para o blog Quintais Imortais.

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About Coletivo Curare

Somos um coletivo multidisciplinar de pesquisadores, nas áreas de biologia, naturologia, farmácia e agronomia, com a missão de difundir o conhecimento científico sobre as plantas medicinais, tóxicas e outros produtos naturais.

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