É medicamento ou veneno?

Crônicas da Farmacovigilância

por Julino Soares

Ainda lembro nitidamente das minhas férias no Rio de Janeiro em 1999. Eu era um “aprendiz de raizeiro” e nem de longe passava pela minha cabeça que um dia essas práticas e saberes no uso das plantas medicinais (ou etnofarmacologia, como é chamado na ciência) seriam o tema do meu mestrado. Bom, tínhamos combinado um passeio até uma cachoeira com minhas tias e amigos, mas como eu estava muito gripado e com dores no corpo resolvi mascar algumas folhas de uma planta conhecida como arnica-do-campo, indicada para dores musculares na medicina popular.

Tudo certo até aí? Não, agora que começa a história! Chegando à cachoeira senti meu coração disparando (e não foi de emoção). Que desespero das minhas tias: “- deita o menino”, “- ele ta recebendo um espírito”, “- isso é uma limpeza espiritual, as coisas ruins estão saindo”, “- faz ele vomitar”, e por ai vai (que vergonha!).

Obviamente isso não é uma carta psicografada, eu sobrevivi! Mas qual seria então o motivo da minha taquicardia? Quando iniciei meu mestrado, em 2008, descobri que a arnica-do-campo ou arnica-brasileira (possivelmente o nome científico é Solidago chilensis), além do uso medicinal ao mesmo tempo é considerada uma planta tóxica pela ciência.

Então a medicina popular estava errada? Devemos banir essas “práticas não científicas”?

Para resolver essa discussão interna resolvi procurar mais trabalhos científicos sobre a Solidago chilensis, e descobri um estudo mostrando que camundongos que receberam o extrato da planta não apresentaram efeitos tóxicos, e melhor, o extrato da planta apresentou um efeito protetor contra a formação de lesões gástricas (anti-úlcera) 1.

Já imagino alguém perguntando: “a ciência está confusa? Isso indica que devemos nos basear em conhecimentos dos nossos ancestrais para cuidar da saúde independentemente da ciência?”

Pois é, eis a questão. Eu só consegui resolver esse problema após alguns anos quando fiz a pergunta correta para um dos raizeiros “- Sr. Benedito, como a arnica-do-campo deve ser usada?”.

Sua indicação popular era para uso tópico nas dores musculares e não ingerida, e muito menos mastigada (pois ingerida na forma de chá há diluição das substâncias da planta na água, e quando mastigada existe a possibilidade de absorção de maiores quantidades das substâncias químicas da planta). Além disso, eu também havia ingerido um comprimido antigripal (alopático) um pouco antes, o que poderia ter provocado uma interação medicamentosa. A interação poderia ter provocado o efeito tóxico (ex., taquicardia) que o antigripal e a arnica normalmente não provocariam quando administrados individualmente.

Resumo da história, para que uma planta medicinal ou medicamento tenha um efeito “medicinal”, é preciso saber o que está sendo usado (nome científico), a indicação adequada (o que faz necessário um diagnóstico correto), a via de administração (oral, tópico, etc.), a quantidade e partes indicadas (folhas, caule, raiz, etc.), a forma farmacêutica (ex., droga vegetal, extrato, cápsulas), a forma de preparo (ex., infusão, decocção – isso também modifica a concentração das substâncias), e a posologia (é a dose adequada por administração). Além disso, devemos considerar a qualidade (a planta deve ser livre de fungos e doenças) e a época da colheita (as plantas podem modificar sua composição química ao longo do tempo).

No caso das pesquisas científicas com animais de laboratório que podem apresentar resultados conflitantes, ou não, é preciso ficar claro que os camundongos são modelos (cobaias), e não vão apresentar necessariamente os mesmos efeitos no homem. E para que todos os cientistas concordem com uma informação científica é preciso que se publiquem muitos estudos.

Ficou claro que a diferença entre o veneno e o medicamento não é apenas a dose?

Agora imaginem o que uma das minhas tias (tia Creusa) disse quando soube disso tudo “Isso é pra você aprender que medicamento não é brinquedo”; está ai um bom conselho.

Referências

1. Lorenzi H, Matos JA. Plantas Medicinais no Brasil: nativas e exóticas cultivadas. Nova Odessa, SP: Instituto Plantarum, 2002.

2. Bucciarelli A, Minetti A,  Milczakowskyg C,  Skliar M. Evaluation of gastroprotective activity and acute toxicity of Solidago chilensis Meyen (Asteraceae). Pharm Biol. 2010 Sep;48(9):1025-30.

Julino Soares é biólogo, doutorando pelo Programa de Pós-Graduação em Psicobiologia da Universidade Federal de São Paulo.

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About Coletivo Curare

Somos um coletivo multidisciplinar de pesquisadores, nas áreas de biologia, naturologia, farmácia e agronomia, com a missão de difundir o conhecimento científico sobre as plantas medicinais, tóxicas e outros produtos naturais.

6 responses to “É medicamento ou veneno?”

  1. Ana says :

    Q crônica deliciosa de ler!!! Muito bom Júlio!!!

  2. Daniel Garcia says :

    Espetacular a crônica!!!! Uma história de vivência que diariamente ocorre em todo mundo, principalmente sobre a prática da automedicação, o que pode ser altamente perigoso para a saúde, assim como alerta o Julino. Já estou ansioso para ler sua próxima crônica. Parabéns!!!!

  3. Julino says :

    Eu também meu amigo..rs

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