Na ânsia por novos medicamentos!

Plantas medicinais podem ser boa alternativa para o tratamento dos distúrbios de ansiedade.

por Thiago Cagliumi

            “Todos os erros humanos são fruto da impaciência, interrupção prematura de um processo ordenado, obstáculo artificial levantado ao redor de uma realidade artificial” (Franz Kafka)

Esta frase de Kafka, escritor checo do século XX, resume de maneira sutil as consequências de uma vida conturbada, na qual os indivíduos tentam prever eventuais problemas sem que de fato ainda existam. Deste mecanismo de defesa criado por nossa mente a fim de preservar a existência, decorre um sentimento de angústia exacerbada que, na grande maioria das vezes, acaba sendo algo incontrolável, denominados Distúrbios de Ansiedade.

Segundo levantamento realizado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) em 2007, a taxa de prevalência destes distúrbios pode chegar a 31% da população de alguns países, levando a ansiedade a ser considerada a doença psiquiátrica mais predominante no mundo.

Os tratamentos clássicos com fármacos Benzodiazepínicos (diazepan®, valium®, rivotril®) e Serotonérgicos como a Amitriptilina (Tryptanol®, Amytril®), a Mitazapina (Remeron®), a Venlafaxina (Efexor®) e a Paroxetina (Aropax®, Pondera®), além de trazerem inúmeros efeitos indesejáveis como dependência e abuso, síndrome de abstinência, sedação, problemas relacionados à diminuição da cognição e memória e disfunção sexual, são ainda uma realidade distante para a maioria da população, uma vez que esta sequer possui acesso aos medicamentos essenciais.

Este cenário vem fazendo com que haja um aumento na procura de alternativas para o tratamento destes distúrbios, sendo uma delas a busca de plantas com efeito ansiolítico (anxius = perturbado, inquieto; lise = quebra). Na literatura científica, muitas plantas são indicadas para esta finalidade, todavia foram encontradas apenas seis que possuem estudos de fase clínica1,2, garantindo real eficiência e segurança aos pacientes; são essas: a Kava-kava (Piper methysticum), o Maracujá (Passiflora incarnata), a Valeriana (Valeriana officinalis), a Ginko (Ginkgo biloba), a Triális (Galphimia glauca), a Camomila (Matricaria recutita) e a Skullcap (Scutellaria lateriflora).

Passiflora incarnata – Foto de Shirley Denton (5)

Considerando, portanto, o cenário epidemiológico destes distúrbios; os efeitos indesejáveis apresentados pelos tratamentos clássicos; a abundância de plantas medicinais com possíveis efeitos ansiolíticos, mas que em sua maioria não possuem estudos de fase clínica; e o fato de existir um Programa Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos3, que deveria garantir o acesso da população a esta alternativa de tratamento no Sistema Único de Saúde (SUS)4 – nos posicionamos a favor de que o poder público invista mais recursos voltados tanto à pesquisa quanto em campanhas educativas sobre fitoterápicos, para que futuramente pacientes possam usufruir destes medicamentos com maior eficácia e segurança.

Referências:

1. Faustino TT, Almeida RB, Andreatini R. Plantas medicinais no tratamento do transtorno de ansiedade generalizada: uma revisão dos estudos clínicos controlados. Revista Brasileira de Psiquiatria, 32(4), 2010

2. Sarris J, Panossian A, Schweitzer I, Stough C, Scholey  A. Herbal medicine for depression, anxiety and insomnia: a review of psychopharmacology and clinical evidence. European Neuropsychopharmacology, 2011.

3. Portaria Interministerial nº 2960, de 9 de dezembro de 2008, aprova o Programa Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos e cria o Comitê Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos.

4. Portaria do Ministério da Saúde nº 971, de 3 de maio de 2006, aprova a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC) no Sistema Único de Saúde.

5. http://www.shirleydenton.com/index.php

Thiago Cagliumi é graduado em Farmácia Industrial pela Universidade São Judas Tadeu e atualmente é aluno de mestrado pelo Programa de Pós-Graduação em Biologia-Química da UNIFESP.

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About Coletivo Curare

Somos um coletivo multidisciplinar de pesquisadores, nas áreas de biologia, naturologia, farmácia e agronomia, com a missão de difundir o conhecimento científico sobre as plantas medicinais, tóxicas e outros produtos naturais.

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