Cultivo de plantas medicinais nativas

Cultivo de plantas medicinais nativas: o caso da Carqueja (Baccharis trimera)

por Daniel Garcia

 As pesquisas agronômicas com plantas medicinais nativas do Brasil são raras em relação às exóticas, sendo um dos principais motivos que dificultam a produção mais organizada. A carência de informações fitotécnicas (ramo da agronomia que aborda técnicas do estudo agronômico sobre as plantas) acarreta com maior facilidade coletas indiscriminada de plantas medicinais, como por exemplo, ocorre com Baccharis trimera (Less.) DC., conhecida popularmente como carqueja.

A carqueja, na forma desidratada, é uma das dez espécies medicinais mais comercializadas do Brasil1 e, ela possui uso destacado na medicina popular brasileira2. Na etnofarmacologia, a parte aérea é usada como digestiva, diurética, hepatoprotetora, hipoglicêmica, no combate da anemia, antiemética e antinauseante3 e a planta toda, como calmante4. Mas lembro aos leitores de que essas são informações de pessoas que praticam a medicina tradicional e que possuem grande conhecimento, porém, a carqueja necessita de mais estudos científicos para ser utilizada como medicamento.

A ampla utilização medicinal da carqueja pela população, aliado às comprovações científicas das ações farmacológicas, conduziram à sua inclusão como fitoterápico na lista de plantas medicinaisde interesse do SUS (RENISUS)5.

Muitos fornecedores coletam essa planta diretamente do ambiente natural de forma inadequada (ao invés de colher as folhas 15 cm acima do colo da planta, ela é arrancada com grande parte da raiz). Atitude extrativista como essa pode colocar em risco de extinção outras espécies medicinais nativas, pois, no Brasil, existe uma fraca relação do ponto de vista organizacional da cadeia produtiva de plantas medicinais com as pesquisas científicas.

Uma alternativa para avançar nos estudos com plantas medicinais nativas e diminuir ações extrativistas é a utilização de variedades e/ou cultivares de plantas medicinais (B. trimera (Less.) DC. cv. CPQBA-1, por exemplo) pelos produtores, pois, viabiliza a demanda por plantas homogêneas, além de manter um fluxo contínuo no fornecimento de matéria-prima de boa qualidade e sustentável ecologicamente. Porém, ainda são necessárias que pesquisas científicas comprovem quais são as reais exigências nutricionais de cada planta medicinal nativa em nível de campo, uma vez que esses dados são extremamente escassos na literatura.

O potencial brasileiro na investigação econômica da biodiversidade nativa é muito pouco aproveitado e ainda é pequena a quantidade de drogas vegetais que tiveram a requisição de registro para produção de medicamentos junto a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), até o ano de 20066.

Portanto, ainda somos um país que ainda não sabe cultivar a maioria das suas plantas medicinais, o que nos torna reféns de plantas exóticas possíveis de serem cultivadas no Brasil. Apesar desse panorama parecer desfavorável, muitos pesquisadores se esforçam para contornar essa realidade e lançar no mercado plantas medicinais nativas que possuam estudos suficientes para o produtor obter êxito no cultivo.

Referências:

1  Silva Júnior, A.A., 1997. Plantas medicinais e aromáticas. Itajaí: Epagri, (CD-ROM). Simões, C.M.O., Mentz, L.A., Schenkel, E.P., Irgang, B. E., Stehmann, J.R., 1998. Plantas da medicina popular no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Universidade/UFRGS, 5 ed. 173p.

2 Furlan, M. R., 2005. Cultivo de plantas medicinais. Cuiabá: 3 ed. vol. 1, SEBRAE, 137 p.

3  Barbano, D.B.A. (Coord.). A fitoterapia no SUS e o Programa de Pesquisas de Plantas Medicinais da Central de Medicamentos. Brasília: Ministério da Saúde, 2006. 147 p.

4 Garcia, D., Domingues, M.V., Rodrigues, E., 2010. Ethnopharmacological survey among migrants living in the Southeast Atlantic Forest of Diadema, São Paulo, Brazil. Journal of Ethnobiology and Ethnomedicine, 6: 29-48.

5  Brasil, 2009. Programa nacional de plantas medicinais e fitoterápicos. Ministério da saúde. 1ª edição, Brasília – DF, 136p.

6 Andrião, M.A., 2010. Marcha de absorção de macronutrientes e acúmulo de Fenólicos totais em [Baccharis trimera (less.) Dc.] var. CPQBA-1, sob diferentes podas no plantio. Dissertação (Mestrado em Agronomia) – Faculdade de Ciências Agronômicas, UNESP, Botucatu.

Daniel Garcia é graduado em Engenharia Agronômica pela Faculdade Cantareira (SP), com iniciação científica em Etnofarmacologia pela UNIFESP e Agronomia pela USP. Atualmente é mestrando em Horticultura pela UNESP.

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About Coletivo Curare

Somos um coletivo multidisciplinar de pesquisadores, nas áreas de biologia, naturologia, farmácia e agronomia, com a missão de difundir o conhecimento científico sobre as plantas medicinais, tóxicas e outros produtos naturais.

7 responses to “Cultivo de plantas medicinais nativas”

  1. Julino Soares says :

    Muito bom esse texto. Precisamos de mais agrônomos trabalhando na área das plantas medicinais. Será que o pessoal da soja e da cana-de-açúcar poderiam nos ajudar?

  2. Daniel Garcia says :

    Olá Julino. Obrigado pelo comentário. A questão que você coloca é muito importante para as pesquisas com plantas medicinais, mas garanto para você que poucos agrônomos brasileiros que trabalham hoje com grandes culturas, como cana e soja, por exemplo, desviariam suas linhas de pesquisa para estudos com plantas medicinais. Isso já vem do “berço”. Abraço meu amigo.

  3. Joao says :

    Eu mesmo vou tentar cultivar em casa,boa idéia

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