Coma esta raiz!

Por Thiago Braz

Uma resenha sobre o documentário “O Desafio dos Fitoterápicos”

“2000 a.C – Coma esta raiz

 1000 d.C – Esta raiz é coisa pagã
—————–Recite esta oração

 1850 d.C – Reza é superstição
—————–Beba esta poção

 1940 d.C – Esta poção é de óleo de cobra
—————–Tome este comprimido

 1985 d.C – Este comprimido é ineficaz
—————–Tome este antibiótico

 2000 d.C – Este antibiótico não funciona
—————–Coma esta raiz”

                                                              (Anônimo)

É essa a reflexão que estampa o final do documentário “O Desafio dos Fitoterápicos” (2004), uma produção CNPq/Fiocruz, dirigida por Sueli Nascimento. Mostrando a complexidade do tema, o filme aborda aspectos que vão desde a valorização cultural, uso da biodiversidade, produção de medicamentos, até o acesso da população à saúde. O vídeo apresenta entrevistas e palestras de especialistas e povos tradicionais, visando traçar e discutir o cenário da fitoterapia do início dos anos 2000, com todo o conhecimento adquirido até então.

Algumas passagens chamam muita atenção pela atualidade das abordagens. A necessidade da conciliação entre o conhecimento tradicional e o científico é um assunto muito debatido no vídeo e ainda se mantém.

Se por um lado a medida provisória que regulariza o acesso ao patrimônio genético ainda se mantém controversa, por outro lado, muitas legislações e estudos foram produzidos nestes últimos anos no país. Exemplo disso é o importante Programa Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos, publicado em 2006, que impulsionou a pesquisa e desenvolvimento de medicamentos fitoterápicos, além de dar posição central ao conhecimento tradicional sobre o uso de plantas medicinais.

Outro ponto alto do vídeo são as declarações do Professor Francisco Abreu Matos.  Em palestra de 2004, o professor declara que “segundo a OMS, cerca de 80% da população dos países do terceiro mundo não tem recursos para a aquisição de medicamentos produzidos pela indústria. Não podemos deixar de fora essas pessoas que nós chamamos de excluídos, porque elas sobreviveram e continuam sobrevivendo utilizando uma quantidade enorme de chás”. A situação de inacessibilidade se mantém. Defensor voraz do conhecimento popular e da ciência, Abreu Matos faleceu em 2008, acreditando na junção entre a raiz e o conhecimento científico.

Assim, abordando diversos aspectos da prática fitoterápica, o documentário traça um panorama do seu tempo. No entanto, o uso de plantas medicinais vai muito além da padronização de extratos, dos testes farmacológicos e aspectos legislativos. Deve-se considerar o contexto ao qual o individuo está inserido, suas condições econômicas, sociais, culturais e ambientais, pois pode-se incorrer no erro de disponibilizar um excelente medicamento à população, que não consegue acessá-lo, não crê no seu efeito e que não faz parte da sua cultura.

Assista!

Vídeo: O Desafio dos Fitoterápicos

Referências

 Programa Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos

Professor Matos – A transcendência do gênio

Thiago Braz é farmacêutico, mestrando da UNIFESP na área de etnofarmacologia.

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About Coletivo Curare

Somos um coletivo multidisciplinar de pesquisadores, nas áreas de biologia, naturologia, farmácia e agronomia, com a missão de difundir o conhecimento científico sobre as plantas medicinais, tóxicas e outros produtos naturais.

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