As plantas sagradas na sociedade ocidental

por Thiago Cagliumi

Além do papel fundamental na medicina tradicional de inúmeras culturas ao redor do globo, as plantas possuem também grande importância dentro do contexto religioso, tornando-as “sagradas” por aqueles que a elas recorrem com tal finalidade, como veremos a seguir.

Entendendo as doenças como algo além da esfera física, os praticantes das religiões de origem africana como o Vodoo, a Umbanda e o Candomblé acreditam que a causa de muitas  enfermidades seja devido à influência de “quiumbas” – espíritos marginais do baixo astral que se encostam às pessoas causando-lhes mal – e que para afastá-los, utilizam-se, além das rezas e benzimentos, determinadas plantas na forma de banhos e defumações para “limpeza e purificação da alma”, conseguindo desta maneira a libertação desses possíveis “maus espíritos”. No Xamanismo, os rituais de cura utilizando-se de plantas acontecem de outra maneira; o Xamã, líder espiritual, utiliza-se de plantas que alteram sua percepção e consciência fazendo-o atingir um estado de transe o qual o conduz ao “mundo dos espíritos”, lugar onde se comunicará com entidades divinas que o guiarão à cura daqueles que o procuraram.  Praticantes do Xamanismo utilizam-se também das plantas para “expansão do consciente” com a finalidade de alcançarem maior autoconhecimento e desenvolvimento nos âmbitos pessoal e espiritual.

Essas plantas utilizadas pelos Xamãs conhecidas pelo termo “enteógeno” ou “enteogênica”, que literalmente significa “manifestação interior do divino”, são atualmente alvo de grandes discussões dividindo opiniões na sociedade. Se por um lado há aqueles que por seus valores morais e conservadores, são contrários ao uso dessas plantas enxergando somente os danos que as substâncias alucinógenas podem trazer de alguma maneira, há por outro lado os que defendem uma posição favorável por acreditarem viver em uma sociedade livre na qual se deve ter o direito de escolha. No meio científico a opinião também é bastante dividida, pois ao mesmo tempo em que efeitos benéficos vêm sendo comprovados e relatados com a utilização das plantas psicoativas, há estudos e evidências de efeitos indesejáveis. Um bom exemplo disso foi abordado durante o encontro “Ayahuasca e o Tratamento da Dependência” que aconteceu entre os dias 12 e 14 de setembro de 2011 na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. Nele foram discutidos inúmeros casos de sucesso no tratamento do alcoolismo e dependentes químicos, mas que em contrapartida outros estudos mostram os riscos de possíveis manifestações psicóticas e abuso da substância com finalidade recreativa por jovens que fizeram utilização desta bebida, a qual é produzida a partir da mistura de duas plantas da Amazônia conhecidas como mariri (Banisteriopsis caapi) e chacrona (Psychotria viridis).

Contudo, apesar do uso religioso de determinadas plantas psicoativas estar permitido no Brasil, percebe-se que ainda há muitos questionamentos e certo tabu envolvido na questão, muito pela escassez de evidências científicas acerca do tema. Sendo assim, o Coletivo Curare é de opinião que os governos devem investir mais em pesquisas que averiguem a fundo os riscos e benefícios do uso de plantas psicoativas, para que futuramente seja feita uma utilização mais segura e melhor orientada, tanto no caráter religioso quanto no terapêutico.

Referências:

Bullis, R.K. The “Vine of the Soul” VS. The controlled substances Act: Implications of the Hoasca Case. Journal of Psychoactive Drugs 2008; 40; 193-199.

Lima, D.B.F. 1979. Malungo, decodificação do Umbanda: contribuição à história das religiões. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.

Metzner, R. Hallucinogenic Drugs and Plants in Psychotherapy and Shamanism. Journal of Psychoactive Drugs 1998; 30; 1-10.

Ratsch, C. 2005. The Encyclopedia of Psychoactive Plants: Ethnopharmacology and Its Applications. United States, Park Street Press.

Schultes, E.R., Hofmann, A. 1982. Plantas de los Dioses. Mexico, D.F. Fondo de Cultura Economica S.A. de C.V.

Thiago Cagliumi é graduado em Farmácia Industrial pela Universidade São Judas Tadeu e atualmente é aluno de mestrado pelo Programa de Pós-Graduação em Biologia-Química da UNIFESP.

Tags:, , , ,

About Coletivo Curare

Somos um coletivo multidisciplinar de pesquisadores, nas áreas de biologia, naturologia, farmácia e agronomia, com a missão de difundir o conhecimento científico sobre as plantas medicinais, tóxicas e outros produtos naturais.

Deixar um Comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: