A influência do deslocamento entre regiões no uso de recursos naturais por grupos/comunidades tradicionais

por Daniel Garcia

Embora a migração seja uma das características da globalização, esta é tão antiga quanto à sociedade humana1 e a mistura cultural mediada pelo deslocamento de grupos/comunidades tradicionais entre regiões tem gerado um interesse crescente nos últimos anos no campo da etnobotânica/etnofarmacologia2,3,4.

A Etnobotânica aborda a forma como as pessoas incorporam as plantas em suas tradições culturais e práticas populares5 ou, de acordo com Alcorn6, a etnobotânica é o estudo das inter-relações entre humanos e plantas em sistemas dinâmicos. Já a etnofarmacologia, originalmente era definida como uma ciência que procurava entender o universo dos recursos naturais (plantas, animais – e seus derivados – e minerais) utilizados como drogas sob a ótica de grupos humanos7. No entanto, ao longo do tempo esta disciplina evoluiu, sendo definida pela INTERNATIONAL SOCIETY FOR ETHNOPHARMACOLOGY como:

Interdisciplinary study of the physiological actions of plants, animals and others substances used in indigenous medicines of past and present cultures”.

 Esse conceito, atualmente também é aplicado no caso de substâncias medicinais provenientes de povos não-indígenas, ampliando assim a diversidade de informações geradas em estudos etnofarmacológicos.

Perante a enorme diversidade bioquímica existente nos diversos biomas espalhados pelo mundo, é muito difícil encontrar ao acaso uma molécula sobre a qual seja possível desenvolver um fármaco competitivo, que atue em um mecanismo conhecido e tenha propriedades farmacológicas significativas8. Diante disso, a etnobotânica/etnofarmacologia são, entre as estratégias utilizadas para a seleção de plantas a serem investigadas em estudos farmacológicos e fitoquímicos, àquelas que apresentam grandes chances de acerto9,10,11, além de ser um dos meios mais rápidos de se chegar a um produto farmacológico12.

Numerosos estudos têm coletado informações sobre plantas medicinais de grupos étnicos que se deslocaram do México para os EUA13,1; do Haiti para Cuba14; da África para a América do Sul15; da África para o Brasil16; da Colômbia para Londres17; da Suriname para a Holanda18; da Albânia para o sudeste da Itália19,20; da Alemanha para o leste da Itália21; e da Europa e África para o leste de Cuba3,22. No entanto, poucos estudos têm focado em deslocamento de grupos/comunidades tradicionais dentro de um país, assim como descrito por Rodrigues et al.23 e Garcia et al.24 sobre os migrantes do nordeste brasileiro que atualmente ocupam o sudeste.

Migração entre as regiões do Brasil incentiva novos contatos com a rica diversidade biológica e cultural, além de permitir interações interpessoais que contribuem para a transformação de terapias medicinais locais21, assim como citado por Garcia et al.24, onde a influência do deslocamento de pessoas do Nordeste e Sudeste brasileiro para Diadema – SP ocasionou em: manutenção, incorporação, substituição e/ou desuso de recursos naturais em suas farmacopéias.

Existem muitas razões pelas quais as pessoas decidem deixar suas respectivas terras-natais e viver em outros lugares, algumas tendo a ver com fatores dentro do local de origem, outros com possibilidades percebidas disponíveis a partir do novo ambiente25,26 como por exemplo, a busca por melhores condições financeiras. Seja qual for a razão para a migração, as pessoas experimentam algumas dificuldades e oportunidades devido ao seu deslocamento para um novo local que àqueles que ficam para trás não podem experimentar27.

A relação entre a riqueza biológica dos diversos ecossistemas mundial e o conhecimento tradicional de populações que dependem diretamente dela para sobreviver é milenar, onde existem enormes possibilidades de descobrir fórmulas medicinais para a cura de diversas doenças. O Brasil é um laboratório in situ para uma variedade de processos que são estudados por pesquisadores de diferentes áreas, incluindo o desenvolvimento de produtos farmacológicos28.

Sendo assim, este texto é uma tentativa de demonstrar com base em alguns trabalhos científicos, a importância que o campo (etnobotânico/etnofarmacológico) oferece na busca de novas moléculas bioativas e como a informação pode ser mais diversificada e enriquecida com o deslocamento de grupos/comunidades tradicionais entre regiões. Espero que este texto possa servir de base em futuras investigações multidisciplinares para o desenvolvimento de novas drogas. Este texto faz parte de um artigo publicado no Journal of Ethnobiology and Ethnomedicine (2010) * além de ser fruto de um capítulo que será publicado em Janeiro de 2012 no livro Pharmacology **.

* Link para ler o artigo: http://www.ethnobiomed.com/content/6/1/29

** O capítulo poderá ser baixado gratuitamente.

Referências

1 – Waldstein A: “Diaspora and Health? Traditional Medicine and Culture in a Mexican Migrant Community”. Int Migr, 46:95-117, 2008.

2 – Thomas E, Vandebroek I, Sanca S, Van Damme P: Cultural significance of medicinal plant families and species among Quechua farmers in Apillapampa, Bolivia. Journal of Ethnopharmacology, 122:60-67, 2009.

3 – Pieroni A, Vandebroek I: Traveling cultures and plants: the ethnobiology and ethnopharmacy of human migrations Berghahn Books: New York; 2007.

4 – Pieroni A, Quave CL: Traditional pharmacopoeias and medicines among Albanians and Italians in southern Italy: a comparison. J Ethnopharmacol, 101:258-270, 2005.

5 – Balick, M.J. & Cox, P.A.: Plants, people and culture. New York: Scientific American Library, 1997.

6- Alcorn, J.B.: The scope and aims of ethnobotany in a developing world. Pp. 23-39. In: R.E. Schultes & S.V. Reis (eds.). Ethnobotany: evolution of a discipline. Cambridge, Timber Press, 1995.

7- Schultes, R.E.: Ethnopharmacological conservation: a key to progress in medicine. Acta Botanica, Porto Alegre. 18 (1/2): 393-406 Suppl.. 1988.

8. FAPESP [http://agencia.fapesp.br/14176].

9 – Spjut, R.W.; Perdue JR. Plant folcklore: a tool for predicting sources of  antitumor activity? Cancer Treatment Reports vol. 60, p. 979-985, 1976.

10 – Balick, M. J. Ethnobotany and the identification of therapeutic agents from the rainforest. In: CIBA Foundation Symposium on Bioactive Compounds from Plants. Bangkok: CIBA, p. 22-39, 1990.

11 – Rodrigues, E. A parceria Universidade –Empresa privada na produção de  fitoterápicos no Brasil. Revisa Fármacos e Medicamentos, São Paulo, n. 37, Ano IV, p. 30-39, 2005.

12 – Giorgetti, M., Negri, G., Rodrigues, E. Brazilian plants with possible action  on the central nervous system—A study of historical sources from the 16th to  19th century, Journal of Ethnopharmacology, 109 (2007) 338–347, 2006.

13- Waldstein A. Mexican migrant ethnopharmacology, pharmacopoeia,  classification of medicines and explanations of efficacy. J Ethnopharmacol, 108:299-310, 2006.

14 – Volpato G, Godínez D, Beyra A, Barreto. A Uses of medicinal plants by Haitian immigrants and their descendants in the Province of Camagüey, Cuba. J Ethnobiol Ethnomed, 5:16, 2009.

15 – Voeks RA. Traditions in transition: African diaspora ethnobotany in lowland  South America. In Mobility and Migration in Indigenous Amazonia:  Contemporary Ethnoecological Perspectives. Edited by: Alexiades M. London:

Berghahn, 275-294, 2009.

16 – Carney J, Voeks RA: Landscape legades of the African Diaspora in Brazil. Prog Hum Geogr, 27:6, 2003.

17 – Ceuterick M, Vandebroek I, Torry B, Pieroni A: Cross-cultural adaptation in  urban ethnobotany: the Colombian folk pharmacopoeia in London. J Ethnopharmacol, 120:342-359, 2008.

18 – van Andel, P Westers: Why Surinamese migrants in the Netherlands  continue to use medicinal herbs from their home country. J Ethnopharmacol,  127:694-701, 2010.

19 – Pieroni A, Nebel C, Quave CL, Münz H, Heinrich M: Ethnopharmacology of  liakra, traditional weedy vegetables of the Arbëreshë of the Vulture area in southern Italy. J Ethnopharmacol, 81:165-185, 2002.

20 –  Pieroni A, Quave CL, Nebel S, Heinrich M: Ethnopharmacy of ethnic Albanians (Arbëreshë) in northern Basilicata (southern Italy). Fitoterapia,  73:217-241, 2002.

21 – Pieroni A, Quave CL, Villanelli ML, Mangino P, Sabbatini G, Santini L: Ethnopharmacognostic survey on the natural ingredients used in folk cosmetics, cosmeceuticals and remedies for healing skin diseases in the inland Marches, Central-Eastern Italy. J Ethnopharmacol, 91:331-344, 2004.

22 – Cano JH, Volpato G: Herbal mixtures in the traditional medicine of Eastern Cuba. J Ethnopharmacol, 90:293-316, 2004.

23 – Rodrigues E, Mendes FR, Negri G: Plants indicated by Brazilian Indians to Central Nervous System disturbances: a bibliographical approach. Curr Med Chem, 6:211-244, 2005.

24 – Garcia D, Domingues MV, Rodrigues E: Ethnopharmacological survey among migrants living in the Southeast Atlantic Forest of Diadema, São Paulo, Brazil. J Ethnobiol Ethnomed, 6: 29-48, 2010. (Link: http://www.ethnobiomed.com/content/6/1/29).

25 – Findley , Sally E, De Jong GF: Community and family factors influencing family migration in Ilocos Norte. Philippine Population Journal, 1(2):18-44, 1985.

26 – Suzuki , Nobutaka : Investing for the future: education, migration and intergenerational conflict in South Cotabato, the Philippines. In Binisaya nga kinabuhi (Visayan life) Edited by: Ushijima, Iwao, Cynthia Neri Zayas. Visayas Maritime Anthropological Studies, College of Social Sciences and Philosophy, University of the Philippines, Quezon City, Philippines, 43-58, 1996.

27- Lacuna-Richman, C. The use of non-wood forest products by migrants in a new settlement: experiences of a Visayan community in Palawan, Philippines. Journal of Ethnobiology and Ethnomedicine, 2:36, 2006.

28 – Rodrigues, E. Plants of restricted use indicated by three cultures in Brazil (Caboclo-river dweller, Indian and Quilombola). Journal of Ethnopharmacology, 111:295–302, 2007.

Daniel Garcia é graduado em Engenharia Agronômica pela Faculdade Cantareira (SP), com iniciação científica em Etnofarmacologia pela UNIFESP e Agronomia pela USP. Atualmente é mestrando em Horticultura pela UNESP.

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Somos um coletivo multidisciplinar de pesquisadores, nas áreas de biologia, naturologia, farmácia e agronomia, com a missão de difundir o conhecimento científico sobre as plantas medicinais, tóxicas e outros produtos naturais.

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