Curare adverte: se não fizer bem… mal pode fazer!

“Caso de insucesso com a administração da planta Janaúba (Synadenium grantii Hook.f.), popularmente indicada para o tratamento do câncer de próstata.”

por Thiago Cagliumi Alves – em memória do Sr. Paulo Robin Nathagora Cagliumi

Há algum tempo que o Coletivo Curare vem alertando sobre os cuidados a serem tomados com a utilização das plantas medicinais, principalmente no que se refere à dosagem, já que muitas dessas possuem um limiar bastante próximo entre o efeito terapêutico e o tóxico. Por isso tanto insistimos em nossos textos sobre a importância em consultar um profissional especializado antes de iniciar o tratamento com qualquer planta medicinal ou fitoterápico.

O que irei apresentar neste texto é o relato de um caso verídico que aconteceu com o meu avô, Sr. Paulo Cagliumi, um homem de 72 anos (na ocasião) que durante toda a sua vida basicamente se tratou com preparações a base de plantas medicinais e medicamentos fitoterápicos.  Pouco antes de falecer em maio deste ano, pediu-me que compartilhasse o fato com ele ocorrido para que de alguma forma sua má experiência pudesse alertar outras pessoas a não cometerem o mesmo erro. Deixo claro também que a causa de sua morte não decorreu da planta em questão, mas de outra patologia que veio a ser diagnosticada dois anos depois.

Certo dia, em meados de maio de 2008, como já era de praxe, o Sr. Paulo acordou bem cedo, preparou o seu café da manhã, alimentou os cachorros e foi varrer a calçada, atividade que fazia como pretexto para jogar conversa fora com outros amigos aposentados que diariamente perambulavam pelas ruas do bairro onde morava na cidade de Santo André. Foi quando um desses velhos companheiros, com a melhor das intenções, apresentou ao meu “véio” (forma carinhosa com que eu tratava o meu avô) uma “milagrosa” planta que estava curando e prevenindo o câncer de próstata em inúmeras pessoas! Tratava-se da popularmente conhecida Janaúba (Synadenium grantii Hook.f.), um arbusto lactescente que pode atingir de 3 a 5 metros, nativo do continente africano e comumente cultivado como planta ornamental e medicinal em regiões tropicais e subtropicais. Uma planta da família Euforbiaceae, cujas espécies pertencentes são conhecidas por serem tóxicas devido aos ésteres diterpenos (ou ésteres de phorbol) presentes no seu látex1.

Como bom conhecedor das plantas e de inúmeros unguentos, os quais ele mesmo tinha o cuidado em preparar, decidiu então adicionar mais este na lista de sua “farmacopéia popular”. O modo de preparo que lhe foi ensinado tratava-se da diluição em 2 litros de água de algumas gotas do látex da planta, administrando-se a solução em doses de uma xícara de café três vezes ao dia.

Excessivamente confiante em seu próprio conhecimento sobre plantas medicinais, adquirido ao longo dos anos,  o “véio” ignorou a posologia indicada e passou o dedo no látex que escorria de um galho cortado da Janaúba, tomando-o de uma única vez sem a prévia diluição sugerida, partindo daquele velho e errôneo princípio: “se não fizer bem, mal também não faz”… Infelizmente desta vez meu avô estava errado. No dia seguinte ao fato, notou ao acordar que suas articulações estavam com manchas vermelhas e sentia um prurido bastante intenso nestas mesmas regiões. Sem dar muita importância, continuou então o tratamento com a preparação diluída conforme recomendação de seu amigo. No terceiro dia percebeu que as manchas e prurido não estavam apenas nas articulações, mas haviam se espalhado por todo o tronco. Decidiu, então, finalmente, interromper o tratamento, pois associou a possível causa desta irritação com a administração do látex da planta.

Incompreensivelmente, mesmo com a interrupção, ao invés de atenuarem-se os sintomas, houve uma piora: no quinto dia após a ingestão do látex a pele de todo o seu corpo encontrava-se intensamente vermelha e com sinais de lesões em função do forte prurido. Em levantamento bibliográfico feito por sua filha (minha mãe), foi encontrado um artigo que reportava um caso bastante similar, abordando o relato clínico de uma menina de quatro anos de idade e que teve cerca de 90%  da superfície de seu corpo comprometida por erupção eritematosa, descamativa, generalizada e pruriginosa e que evoluiu da mesma maneira em um espaço de tempo de 9 dias após o contato com a planta2.

Passados dez dias após interromper o uso, as lesões começaram a secar e aparentemente a situação estava controlada, mas, nos meses que se seguiram, seu quadro clínico piorou e surgiram outras doenças que deixaram seu estado geral de saúde bastante debilitado, como reumatismo, catarata e anemia.

Com a ajuda de dois professores da UNIFESP, que gentilmente se dispuseram a compartilhar seus conhecimentos comigo, pude entender melhor a família botânica desta planta (a qual coletei e pode ser identificada por  Dra. Inês Cordeiro, taxonomista do Instituto de Botâncica de São Paulo, e Dr. Víctor Steinmann, botânico do INECO – Instituto de Ecologia, A.C.) e seus respectivos compostos químicos, destacando o fato de que algumas das substâncias tóxicas das Euforbiáceas possuem o tempo de meia-vida bastante longo, podendo permanecer no organismo por muitos meses.

No entanto, não foram encontradas publicações científicas que pudessem afirmar uma possível relação entre esta evolução clínica e a administração da planta, tampouco conseguimos obter qualquer informação com o CEATOX devido à falta de relatos de intoxicação causados pela Janaúba.  Em função disso ressaltamos a importância de que todas as pessoas que venham a se deparar com semelhante situação, que entrem em contato com este órgão, pois desta maneira, além de poderem contar com a ajuda de especialistas, certamente também estarão colaborando com informações para futuros casos como estes.

O caso da intoxicação do Sr. Paulo foi apenas mais um entre tantos que ocorrem devido à falta de informação e à imprudência na utilização de uma planta medicinal com elevado nível de toxicidade. Antes da aplicação da Janaúba para o tratamento do câncer de próstata, muito ainda se precisa compreender acerca de sua real atividade anticarcinogênica e principalmente seus efeitos tóxicológicos. Por isso, voltamos a enfatizar a importância dos pesquisadores aproveitarem o conhecimento popular para direcionar suas pesquisas, a fim de garantirem novas drogas, ou mesmo investigarem as plantas medicinais in natura, comprovando assim a segurança e eficácia destas para o uso pela população, que, por sua vez, deve buscar as informações necessárias com profissionais especializados de modo a não se deparar com situações indesejadas como esta vivenciada pelo meu avô.

Referências

1- Bagavathi et al. (1988). Tigliane-type diterpene esters from Synadenium grantii. Planta Med 54(6):506-10.

 2- Docampo et al (2010).Erythroderma secondary to latex-producing plants (Synadenium grantii). Arch Argent Pediatr 108(6):e126-e129

Thiago Cagliumi Alves é graduado em Farmácia Industrial pela Universidade São Judas Tadeu e atualmente é aluno de mestrado pelo Programa de Pós-Graduação em Biologia-Química da UNIFESP.

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About Coletivo Curare

Somos um coletivo multidisciplinar de pesquisadores, nas áreas de biologia, naturologia, farmácia e agronomia, com a missão de difundir o conhecimento científico sobre as plantas medicinais, tóxicas e outros produtos naturais.

15 responses to “Curare adverte: se não fizer bem… mal pode fazer!”

  1. YAra says :

    Nossa eu tenho um pé desta plantas e muitas mudas, todas muito lindas de um verde exuberante, mas nunca fiz uso dela.

  2. Coletivo Curare says :

    Olá Yara,
    Sim, é uma planta linda! Esperemos que em breve nào apenas sua beleza, mas também suas propriedades medicinais, possam ser apreciadas – assim como a Janaúba, muitas outras plantas com potencial terapêutico ainda carecem de pesquisas que garantam sua eficácia e segurança.
    Obrigado pela sua visita.

  3. diego says :

    Existe algum estudo sério sobre as propriedades da Janaúba?

  4. eliana rodrigues says :

    É importante mencionar que a identificação botânica desta planta só foi possível pelo esforço da taxonomista Inês Cordeiro, quando o Thiago era aluno do Centro de Estudos Etnobotânicos e Etnofarmacológicos da UNIFESP, uma vez que apenas o nome popular não teria trazido grande contribuição ao público.

  5. Coletivo Curare says :

    Prezada Eliana Rodrigues, obrigado pelo seu comentário. Sua sugestão foi incorporada ao texto.
    Coletivo Curare

  6. Coletivo Curare says :

    Caro Diego, existem publicaçòes acerca dos efeitos tóxicos, porém, até o momento do levantamento feito pelo Thiago Cagliumi, nenhum trabalho que comprovasse as propriedades anti carcinogênicas desta planta foi encontrado.

  7. Fernando says :

    Está meio confuso esta descrição de insucesso da Janaúba, faltam detalhes, mas ao que tudo indica e com todo o respeito, o Sr. Paulo foi imprudente, quanto ao uso do planta. Acho que já passou da hora dos orgãos responsáveis fazerem uma pesquisa séria sobre esta planta, pois a Janaúba, juntamente com a medicina convencional, tem realizado um número de curas consideraveis em várias pessoas que já estavam desenganadas pelos médicos. Tenho um amigo chamado Luiz ( O endereço é Dr. Durval Vilalva, 377, Itaim Paulista, São Paulo, SP. O e-mail é luis@ramoscomp.com.br) que a mãe dele estava com Câncer e ele utilizou o remédio e fez uma promessa que se o remédio curasse a sua mãe, ele faria propaganda e distribuiria o remédio para os enfermos gratuitamente pelo resto de sua vida e ele vem fazendo isto a mais de 10 anos, todas as tercas feiras, às 17 horas, ele dá uma palestra, onde explica como fazer o remédio e distribui as plantas para os enfermos gratuitamente. Ele mesmo já teve Câncer na Faringe e a planta ajudou a curar. A seiva da planta é venenosa, mas em pouca quantidade dissolvida em água mineral cura várias doenças, ela corrige o que está errado em nosso organismo, eu tomo devido a pressão alta e circulação, minha esposa toma devido ao diabete e após os quatro meses de uso, fizemos exames e o resultados (numeros) foram positivos. Vários médicos, inclusive Oncologistas de vários hospitais (São Luiz, Sírio, Einstein, etc…) mandam parentes ou pacientes procurarem o Sr. Luiz. que é uma pessoa do bem. Ele faz parte de um grupo beneficiente que distribue gratuitamente cestas básicas aos necessitados, que fôr assistir a palestra e puder levar 2 kg de produtos não perecíveis que fazem parte da cesta básica, será bem recebido, somente quem puder levar, não é obrigatório.

  8. Coletivo Curare says :

    Caro Fernando, primeiramente muito obrigado pelos seus comentários e por nos ajudar a promover o debate científico entre os membros do blog do Coletivo Curare.

    Para melhor tentar ajudá-lo e esclarecer os fatos, gostaríamos de compreender quais exatamente seriam esses detalhes que você menciona estar faltando e quais pontos exatamente estão confusos. De qualquer modo, podemos não ter todas as respostas visto que o Sr. Paulo faleceu em maio do ano passado e somente ele certamente teria algumas destas informações mais específicas em relação a doses administradas e frequência de uso. Com relação à imprudência desse senhor, concordamos plenamente com esta colocação e foi justamente em função disso que o nosso coletivo decidiu publicar este texto, já que mais pessoas podem ser vítimas de tais leviandades devido à falta de conhecimento, ou ainda pior, do falso conhecimento, o grande vilão dos casos de intoxicação e falta de efici6encia nos casos de tratamento com plantas medicinais. .

    Outro ponto importante é a real identificação botânica da espécie. Se fizermos uma simples busca no Google por Janúba, outras plantas serão apontadas (Himatanthus drasticus, Synadenium carinatum ) que não apenas a Synadenium Grantii, a qual foi botanicamente identifica conforme descrito no texto.

    Com respieto ao Sr. Luiz que você menciona em seu comentário, temos absoluta certeza, com base no que você descreve, que se trata de uma pessoa do bem, no entanto, como um grupo científico não podemos fazer menção a qualquer tipo de uso/conhecimento popular sem evidências publicadas, sejam estas farmacológicas, etnofarmacológicas ou relatos médicos.

  9. Coletivo Curare says :

    Para melhor compreender do que exatamente se trata a etnofarmacologia, recomendo a leitura do texto escrito pela Raquel Antonio também publicado aqui neste blog.

    http://coletivocurare.wordpress.com/2011/11/07/etno-o-que/

  10. Coletivo Curare says :

    Outro texto bastante esclarecedor acerca do tema “conhecimento popular e conhecimento científico”, escrito pelo nosso amigo Julino Soares, também publicado neste blog.

    http://coletivocurare.wordpress.com/2012/06/20/tem-que-ter-ciencia-e-experiencia/

  11. Hildebrando says :

    Se o movimento deseja fazer um trabalho comprobatório, científico, baseado em planos de pesquisas(efeito placebo), estatísticas, penso que não falta relatos na internet, como o caso com endereço e telefone o do Sr. Luiz que foi curado com a referida planta. O Sr. Luiz deve ter exames antes e após o uso da planta bem como muitas outras pessoas que foram mais beneficiadas com o uso da planta, não quero falar mal do nosso SUS, mas alguém já se perguntou o que leva pessoas a buscarem plantas como a janaúba para resolver seu problema de saúde. Digitei no google e encontrei endereços de outras pessoas que também foram curadas pela synadenium, eu fiz isto e fiquei espantado com os números, me pergunto, por qual razão a ciência não investe nesta planta. Respeito a ciência, mas ela as vezes falha, só a título didático, lembro que a palavra artéria, veio da crença científica que passava ar na artéria em vez de sangue, e muitos outros casos, respeito a ciência, mas os cientistas são homens e como tal naturalmente falham.

    Parabéns pela matéria! Continuem de modo polido, inteligente, investigativo promover informações valiosas.

    Obrigado.

  12. Francisco says :

    Moro perto do LUIS e o chamo de anjo pelo que ele ensina sobre essa planta. Eu sou usuário ha anos e ensino muitas pessoas a usa-la, principalmente. Ja consegui que pessoas portadoras de diabetes praticamente eliminassem a insulina e recuperassem visao quase perdida. Para câncer ate pessoas desenganadas por médicos ja conseguiram recuperação. Acho incrível que pesquisas repentinamente desaparecem das literaturas e aparecem as criticas. Claro que o uso da JANAUBA – SINADENIUN GRANTII deve ser cauteloso, principalmente no manuseio do látex que realmente e tóxico podendo causar lesões e se atingir os olho a dor e terrível (no inicio já me acidentei algumas vezes). E so lavar bem as mãos após o manuseio e não tocar em partes sensíveis. NUNCA usem o o látex inatura pode causar lesões na boca língua etc.Duvidas participem da palestra com o LUIS ele não cobra nada ou entrem em contato comigo pelo email= franciaco.tecnico@hotmail.com.

  13. Wanderson says :

    Moro em Belo Horizonte e conheço varias pessoas que fizeram o uso da planta e se curaram, gostaria de deixar relatado que a janauba que aparece nas fotos acima nao parece com a janauba que tem no meu quintal a mais ou menos 5 anos, as folhas são parecidas mas ela naõ da flor. Sera que é a mesma planta?

  14. MARCOS RODRIGUES says :

    OLÁ MOÇADA BOA TARDE, UNS DIZEM QUE PLANTA JANAUBA NAO TEM NADA HAVER COM AQUELE ALGODAO DE SEDA, OUTROS DIZEM QUE A PLANTA JANAUBA É O ALGODAO DE SEDA, QUAL É O CERTO???? ESTOU PRECISANDO DA MESMA, MAS NAO SEI QUAL É A PLANTA

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  1. Nova Safra 2013 | C U R A R E - Ciência das Plantas Medicinais - fevereiro 27, 2013

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