‘Etno’ o quê?!

por Raquel Luna

Anteriormente, falamos sobre as medicinas tradicionais – chamadas medicina complementar e alternativa, ou prática complementar e integrativa, quando são aplicadas fora do seu contexto de origem. Pois bem, alguns dos campos da ciência que pretendem justamente estudar esse conhecimento tradicional são a etnobotânica e a etnofarmacologia. A etnobotânica foca na relação dos grupos humanos com o reino vegetal. Já a etnofarmacologia busca conhecer e entender o uso dos recursos naturais utilizados por grupos humanos com finalidade especificamente medicinal. Estes recursos podem ser minerais e animais, além das plantas.

A principal ferramenta utilizada por estas disciplinas é o trabalho de campo, além da pesquisa em livros – obras produzidas por naturalistas* que primeiro chegaram às Américas ou as farmacopéias clássicas das Medicinas Tradicionais Chinesa, Tibetana e Ayurveda, por exemplo. No campo, o método da etnografia é aplicado, na forma de entrevistas, observações e anotações em diário de campo. O objetivo é que o pesquisador conviva com os membros da comunidade, participando de celebrações, rituais e atividades cotidianas, e compreenda os aspectos culturais que envolvem as práticas medicinais. No caso das plantas medicinais, é necessário coletar amostras das indicadas pelos entrevistados, através de métodos da botânica, para que sejam identificadas por especialistas e depositadas em herbários. O mesmo processo de identificação é necessário para animais e minerais. Vale mencionar que antes do trabalho de campo começar, muitos termos e documentos legais devem ser providenciados pelo pesquisador, a começar com um documento atestando a concordância da comunidade em que o estudo se desenvolverá.

Alguns pesquisadores também chamam de etnofarmacologia os estudos de química e farmacologia conduzidos a partir de informações provenientes dos estudos de campo ou da literatura, porém, no nosso entendimento, o termo se refere ao levantamento do conhecimento sobre os recursos naturais utilizados por grupos humanos com finalidade medicinal.

Há diversos exemplos da observação de campo etnofarmacológica que posteriormente desencadearam a produção de medicamentos: a dedaleira (Digitalis spp.), um importante cardiotônico; a papoula (Papaver somniferum), tendo derivados como a morfina, analgésico poderoso, e a heroína, substância de abuso; o quinino, anti-malária, que é derivado da quina (Cinchona spp.); o salqueiro-branco (Salix alba), analgésico e anti-reumático, que possui um derivado bastante conhecido, o ácido salicílico; o tabaco (Nicotiana tabacum) utilizado pelos nativos da América Latina, que foi levado à Europa e então a molécula ‘nicotina’ foi isolada; e o próprio curare, mistura de plantas como Chondodendron tomentosum e Strychnos spp., utilizado como anestésico.

Logo, a etnofarmacologia é uma grande ferramenta para sugerir ingredientes visando o desenvolvimento de medicamentos, além de trazer ao nosso conhecimento conceitos e práticas de culturas diferentes e incentivar, direta ou indiretamente, a conservação do meio-ambiente. Considerando a riqueza em biodiversidade e cultura do nosso país, estudos etnofarmacológicos poderiam e deveriam ser mais incentivados!

* Naturalismo é uma escola literária, cuja narrativa dos fatos baseia-se na observação fiel da realidade

Referências:

Rodrigues E, Otsuka RD. Estratégias utilizadas para a seleção de plantas com potencial bioativo com ênfase nos métodos de etnobotânica e etnofarmacologia. In: Carlini EA e Mendes FR (Eds) Protocolos em Psicofarmacologia comportamental. Editora UNIFESP, São Paulo, no prelo.

Gertsch J. How scientific is the science in ethnopharmacology? Historical perspectives and epistemological problems. Journal of Ethnopharmacology, 122: 177-183, 2009.

Raquel Luna é naturóloga, mestranda pelo Programa de Pós-Graduação em Psicobiologia da Universidade Federal de São Paulo.

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About Coletivo Curare

Somos um coletivo multidisciplinar de pesquisadores, nas áreas de biologia, naturologia, farmácia e agronomia, com a missão de difundir o conhecimento científico sobre as plantas medicinais, tóxicas e outros produtos naturais.

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